quarta-feira, 14 de novembro de 2007

MORRE O POETA ANTENOR FERREIRA LIMA

“A História é do vivos, pois ela é a realidade – obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são História, gerando passado e futuro. Conhecer a História é conhecer o Homem; É conhecer-se.”

Jose Honório Rodrigues – Teoria da História no Brasil


Encerradas as Memórias, oferecemos ao leitor alguns excertos de publicações que ilustram e revigoram o momento poético; possibilita-nos conhecer alguns episódios que marcaram a trajetória da poesia em nosso município,
através de seus artífices.

MORRE O POETA ANTENOR FERREIRA LIMA

Morreu na noite de 28 de março, aos 53 anos de idade, o poeta Antenor Ferreira Lima, autor dos livros “Maré Vermelha” (poesia), 1978 e “Tormenta das Horas” (poesia), 1983. Era colaborador do jornal a “A Voz de Mauá”. Até hoje não me conformei com a morte do Mestre Antenor. Era meu grande amigo e vinha sempre à minha casa; chegando por volta das 20 horas. Nesse dia, veio ao anoitecer, muito sorridente, como de costume. Trouxe uma fita cassete contendo uma entrevista que estava fazendo comigo; tocou partes da mesma, cotejamos o texto gravado com o escrito, fizemos pequenas emendas e passamos a falar amenidades (contou-me seus planos para o futuro; que pretendia vender seu estabelecimento comercial, tratar da aposentadoria e dedicar o resto de sua vida a escrever seus livros). Em seguida, tomando de uma folha de papel, riscou uma planta referente à parte de sua casa, que pretendia transformar em escritório de trabalho e passou a fazer uma retrospectiva de sua vida, destacando alguns pormenores. Em certo momento, levantou-se, deu uma volta na sala, apanhou um livro, folheou-o e voltando-se, perguntou, com um sorriso nos lábios:
- Lembra-se de como nos conhecemos ?
- Oh, sim! Foi num dos EPOMs de Mauá, não? – perguntei eu.
- Sim – disse ele – lembra-se de que você me deu um coice de mula naquele dia?
Sorrimos e aí ele passou a narrar a história com todos os seus pormenores, às vezes, imitando minha voz.
- Quando cheguei à biblioteca, você e o Castelo Hanssen discutiam acaloradamente, no pátio. Você fulminava um certo trabalho que fora classificado como finalista do concurso. Dizia que o mesmo era um lixo, que os juízes eram jejunos, uns distantes, uns bastardos, que nada entendiam de literatura. Já o Castelo defendia o poema e dizia, com aquele seu jeitão matuto de gozador, que você não havia entendido o mesmo, que o poema não era uma maravilha, mas não era tão ruim assim. Nisso, você explodiu, chamou o Castelo de conivente com os maus poetas e os juízes safados, jogou longe um toco de cigarro e subiu as escadas bufando. O Castelo continuou onde estava, fazendo proselitismo e dizendo que você era um sujeito rabugento, que gostava sempre de ser do contra. Antes de iniciar a sessão da noite, entramos todos no salão e você, postado em um dos cantos, discutia alto, juntamente com alguns jovens que apoiavam seus pontos de vista. Enquanto isso o Castelo, que também estava acompanhado por seus adeptos, ficou na outra extremidade, também a discutir o assunto. Nisso me aproximei de você e perguntei qual era o critério usado para o julgamento dos trabalhos. Você, que estava muito exaltado e gesticulava muito, deu um pontapé numa cadeira e rematou com um palavrão:
- Não sei de porra nenhuma, não! Vá procurar o promotor do Concurso, que por certo lhe dirá com antecedência até quem vai ganhar em primeiro lugar.
Após relembrar todos esses momentos, Antenor levantou-se e disse:
- Pois é Theodoro, utilizei esse episódio como início no prefácio que estou escrevendo para as nossas “Vozes na Tempestade” (Antologia de Poemas que o Colégio Brasileiro de Poetas preparava na época). Falou ainda do seu romance “Rebelião dos Cachorros”, que ficou inacabado e, por volta das dez horas, despediu-se, prometendo voltar no dia seguinte, a fim de revermos a nova cópia da entrevista, já datilografada com as devidas emendas.
Para minha surpresa, ao chegar à firma onde trabalho, recebi um número telefônico para o qual deveria ligar imediatamente. Liguei e logo fiquei sabendo que Antenor havia morrido naquela madrugada. Fiquei chocado, perplexo e fiz em seguida algumas ligações a fim de entrar em contato com alguns amigos do poeta e meus, que já sabiam da notícia, através da Iracema, Cidinha e do Dr. Sérgio Carvalho.
O certo é que o Colégio Brasileiro de Poetas acabara de perder um dos seus mais ardorosos membros, bem como um amigo incomparável, que era capaz de tudo fazer em prol dos seus amigos, isso sem olhar hora ou condição de tempo. A morte do Antenor deixou uma lacuna irreparável em nosso meio, pois o autor de “Maré Vermelha” era um desses homens raros, que só sabia somar, um verdadeiro oceano de bondade, que via só o lado bom do ser humano; fora várias vezes roubado e ludibriado por pessoas inescrupulosas, mesmo assim, nunca o vi desejar mal àquelas pessoas, nunca blasfemava, enfim, era uma criatura de Deus, que passou por este mundo sem querer mal a ninguém. Mestre Antenor, que a terra lhe seja leve e espero que um dia possamos estar juntos novamente, num mundo melhor, a fim de darmos prosseguimento às nossas palestras interrompidas com a sua partida. Até lá, queridíssimo amigo; aqui fico, com o coração aos pedaços, chorando a sua ausência.

Aristides Theodoro
A Voz de Mauá, 5/4/84

“Tributo a Antenor”


Manoel Ferreira da Cruz
(do Colégio Brasileiro de Poetas)


A vinte e nove de março,
cinco horas da manhã,
morreu Antenor Ferreira,
poeta que era um titã.

Era isso com certeza,
era um poeta colosso.
Morreu na flor da idade,
pois seu espírito era moço.

Morreu nosso companheiro,
e o Colégio Brasileiro,
chora a morte do irmão.
E o Antenor lá nos céus,
fazendo versos pra Deus,
conforta-nos o coração.

A Voz de Mauá 5/4/84




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APÊNDICE I - QUATRO ESCRITORES MAUAENSES TOMBADOS NA MORTE

APÊNDICE I

“Assim, parece-me, neste momento que a memória é uma faculdade maravilhosa e que o dom de fazer ressurgir o passado é também surpreendente e bem melhor que o dom de prever o futuro”.

Anatole France

QUATRO ESCRITORES MAUAENSES
TOMBADOS NA MORTE


O que dizer de gente como Luis Gubitozo, Vicente Mariano, Antenor Ferreira Lima e Dirceu Hanssen? – Gente que viveu, amou e morreu?
Ah, quantas lembranças! Quantas doces e doloridas lembranças, especialmente dos dois últimos, por serem mais chegados a mim.
“O Homem passa, desaparece na morte, porém deixando um pensamento escrito, permanecerá para sempre”, já dizia Coelho Neto. E alguns desses escritores, mesmo não sendo grandes nomes das letras nacionais, por certo viverão nas páginas amareladas dos livros e antologias de que participaram. Luis Gubitozo e Vicente Mariano viveram longas vidas, morrendo não muito distante um do outro. Antenor Ferreira Lima e Dirceu Hanssen morreram muito jovens, na flor da idade.
O ensaísta Luis Gubitozo nasceu em São Simão – São Paulo, no dia 04 de setembro de l910. Mudou-se para Mauá, onde se instalou como consertador de rádio, na então cidade da Porcelana. Era um homem atirado, inquieto e muito criativo; chegou mesmo a planejar e executar um pequeno avião, que no dia de seu vôo inaugural, espatifou-se ali nas matas do Sertãozinho. Gubitozo escreveu um livro, “Caminho a Seguir”, recebendo calorosas palavras de elogio do então presidente Castelo Branco. Ao morrer, no dia 18 de junho de 1985, deixa esboçados mais cinco livros de reflexões sobre os graves problemas do País e leva consigo uma consciência tranqüila de haver cumprido o seu dever, aqui, neste vale de lágrimas.
Vicente Mariano era um homem simples, um homem do povo, muito religioso, que fazia uma poesia também simples, forrada da mais pura ingenuidade, sempre enaltecendo as coisas do espírito. Pouco conheço de Vicente Mariano, embora nos víssemos e nos cumprimentássemos com muita efusão a cada segundo domingo do mês, por ocasião dos Recitais de Poesia , promovidos pelo Colégio Brasileiro de Poetas, de Mauá, nas dependências do Museu Barão de Mauá. Vicente Mariano não chegou a publicar nenhum livro; seus trabalhos foram inseridos na antologia “Revoada de Pássaros Negros”, publicada pelo Colégio Brasileiro de Poetas, em 1980, e outros tantos, publicados pela “A Voz de Mauá”, jornal que muito colaborou e continua colaborando com as letras da região, sempre publicando e estimulando os novos escritores.
De todos os poetas, Antenor Ferreira Lima foi o mais fecundo, o que mais produziu, publicou. Participou das quatro antologias do Colégio e de tantas outras editadas na época, por estes brasis afora. Colaborou, com seus artigos, em vários jornais, ora publicando poesia, contos, ensaios e ora, crítica literária, e nos deixou os seguintes livros: “Maré Vermelha”, poesia, 1978 e “Tormenta das Horas”, poesia, 1983. Foi membro dos mais atuantes do Colégio Brasileiro de Poetas e, ao morrer, trabalhava nos seguintes livros: “Rebelião dos Cachorros” (contos); “Encontro das Águas” (poesia) e “Marco Zero” (poesia). Antenor Ferreira Lima nasceu em Igreja Nova, Alagoas, no dia 24 de dezembro de 1930 e morreu em Mauá, no dia 28 de março de 1984, deixando uma imensa lacuna para a poesia mauaense e abeceana.
Dos quatro escritores abordados aqui, Dirceu Hanssen (O Quincas Berro D’Água, como era conhecido entre os íntimos), irmão do jornalista Castelo Hanssen, foi o que menos produziu. Porém sua vida foi rica em anedotários e achados pitorescos. Escreveu três ou quatro poemas e duas crônicas durante toda a vida, que foram publicados em “Revoada de Pássaros Negros” e na “Vanguarda”. A maioria dos seus poemas não foram escritos, porém ditos, esbanjados nas mesas do Bar do Yugo, onde o Dirceu se ensopava de cachaça, fumava fedidos Macedônias e dizia, às vezes, verdadeiras pérolas, que eram acrescentadas à sua vida folclórica e desregrada de beberrão inveterado.
Portanto, quatro escritores mauaenses já tombados na morte, que além das minhas reflexões, devem ser lembrados.

Estes fragmentos de
“Quatro Poetas Mauanses Tombados na Morte”
escrito por Aristides Theodoro, foram transcritos da Revista “Em Movimento”, agosto de 1998, nº 1.


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DA TEIMOSIA E DA ETERNA JUVENTUDE

DA TEIMOSIA E DA ETERNA JUVENTUDE

Castelo Hanssen

O Aristides Theodoro já contou em “Revoada de Pássaros Negros” como surgiu sua amizade com o Moysés, comigo, com o mano Dirceu e com o Mané Galileu e foi assim, que de repente, éramos uma grande turma de fazedores de literatura, com doses de política e muitas pitadas de sonhos. Portanto, eis a receita ideal para se fazer um grupo literário. Eis como nasceu o Colégio Brasileiro de Poetas, que hoje apresenta a sua terceira antologia, “Útero da América”.
É claro que o bom baiano não contou toda a história nem pretendo contá-la neste despretensioso prefácio. Acontece que a verdade, como já disse alguém, “mora no fundo do poço” e a vida é longa, o pensamento é vário e a nossa memória é falha...
Sei dizer que o nome do Colégio Brasileiro de Poetas, do qual sempre discordei, mas fui voto vencido, nasceu por inspiração do Moysés, na redação da Tribuna Popular, um semanário de Santo André, como não se faz mais. Era um jornal dos bons tempos, dirigido pelo Nelson Bergamaschi, onde o Theodoro, eu e às vezes o Moysés, o Dirceu e o Mané Galileu, escrevíamos nossas crônicas, sem qualquer vínculo empregatício, sem qualquer profissionalismo, mas desfrutando (em tempos difíceis) a doce liberdade de opinião, tão decantada e cada vez mais esnobada, incluso por quem se diz defensor da imprensa livre e da classe dos jornalistas. Mas a nossa história é outra e convém deixarmos isso pra lá.
O fato é que o Moysés apareceu com o nome, a súmula do estatuto e até a diretoria desse grêmio, que fora assinado por ele, por mim, Theodoro e Nelson, no dia 19/10/73 e que então visava a congregar escritores e artistas; mas que eu saiba, não tinha uma finalidade bem definida. Essa primeira idéia morreu no vazio mas a semente ficou e o nome também.
Além das nossas tertúlias no Bar do Yugo, movidas a risos, piadas, pastéis, muita pinga com limão e de vez em quando, até mesmo, literatura, aconteceram outras coisas em Mauá. Por exemplo, os primeiros “Encontros de Poetas” - EPOMs – nos quais fui muitas vezes laureado, não sei se pela qualidade das minhas poesias ou pelos meus lindos olhos míopes (sei que sempre se discutiu isso e a discussão foi motivo para muitos “arranca-rabos” entre eu e meus amigos). Surgiu logo em seguida o TECO, que no início era Teatro do Colégio, por pertencer aos alunos do Viscondão e depois passou a chamar-se Teatro da Comunidade, rompendo assim os cordões umbilicais que o prendiam à escola. Eu, que sempre fugi da escola, acabei fazendo parte desse grupo o suficiente para descobrir que o teatro não é o meu ramo. Mas o Teco entra na história do Colégio Brasileiro de Poetas quando seus dirigentes convidaram a nós, poetas sem teto, que nos reuníamos no Bar do Yugo e na Praça 22 de Novembro, para fazermos juntos um trabalho de nível cultural. Chegamos mesmo a montar um recital dramatizado, composto de música, teatro e poesia, que antes de sua estréia, levou o grupo a mais um dos homéricos “arranca-rabos”, causando o desligamento do Theodoro, do Moysés, do Celso e do Boralli (os dois últimos faziam música). Estreamos de teimosos, num dos trabalhos mais porcos que alguém já conseguiu fazer na história da poesia, da música e do teatro. Também pudera, com um grupo despedaçado, desmilingüido, às vésperas da sua apresentação!

O certo é que o Teco logo morreu e o Colégio Brasileiro de Poetas quase agonizou. Até mesmo aquela nossa velha amizade do boteco do Yugo arrefeceu, mas o Theodoro, que se diga de passagem é uma velha mula teimosa, que não desanima tão fácil, conseguiu, a muito custo, reunir novamente o grupo (eu, Dirceu, Mané Galileu, Samuel Fernandes de Aguiar, Antenor Ferreira Lima, Moacir, J. Ramos e Iracema Mendes Régis), juntamente com outros elementos novos, que aderiram ao grupo.
Nessa época, pretendíamos fundar uma espécie de cooperativa para editarmos um livro, furando assim, o eterno bloqueio das editoras. O fato é que essa cooperativa virou grupo literário e esse grupo literário passou a chamar-se novamente: Colégio Brasileiro de Poetas e depois de muitas rusgas com gráficas, quebra-paus entre nós mesmos, arrecadação de dinheiro, apoio da Prefeitura e do Comércio local, surgiu o nosso primeiro livro, em 1977, que se intitulou “10 Poetas em Busca de um Leitor”, um acontecido importante na vida da pequena cidade de Mauá. Depois de outras aventuras e desventuras, editamos o nosso segundo livro, “Revoada de Pássaros Negros”, em 1980. Com um pouco menos de briga, mais tranqüilidade, surge agora, esta terceira antologia “Útero da América”.
Editar livros é muito importante, mas não é tudo. Principalmente num país, onde se lê muito pouco. Mas a poesia faz parte do cotidiano, como conseguimos demonstrar e como vêm demonstrando outros grupos que surgiram depois de nós e ainda estão a surgir por este mundão de meu Deus afora, para levar a poesia com toda a sua essência ao povo e para beber da poesia desse mesmo povo.
Fugindo ao grupo fechado, o Colégio “bolou” um recital de poesias mensal, em local público, onde todos são convidados a ouvir e falar poesia e o povão atendeu ao nosso chamado e revelamos novos talentos, poetas de todas as idades, novos e velhos, pretos e brancos, operários e não-operários, donas-de-casa e hippies, enfim, gente que pensa, anda, sente dores e se angustia.
O certo é que o Colégio Brasileiro de Poetas aí está, vivo e forte, a mostrar que as idéias, quando bem canalizadas, não morrem. O Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá não se casou, mas pariu filhos legítimos, como o “Colégio Brasileiro de Poetas II” de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, dirigido pelo poeta Samuel Fernandes de Aguiar, “O Letraviva”, de Guarulhos, dirigido por mim, entre outros. A prática de reunir poetas sob o mesmo teto despertou a poesia adormecida em cada um, encorajando as pessoas a mostrarem seus trabalhos; frutificou e hoje existem recitais dessa natureza espalhados por todos os cantos. O Colégio suplantou as fronteiras e tem, em seu seio, gente nova e promissora, que quer continuar esse trabalho pioneiro, de espalhar poesia por todo o Brasil. O grupo é grande, gente, muito grande, vasto como o mundo e tem lugar para todos os que queiram trabalhar em prol da poesia e em nossa terra.
Eu falei em “arranca-rabos”. Pois é, existiram, e muitos e por certo continuarão a ocorrer, mas são brigas de família que sempre terminam em confraternização. Nessas brigas todos têm razão, pois cada um quer o melhor para a poesia e para o grupo e todos são teimosos, obstinados como convém a quem sabe onde pisa e aonde quer chegar. E somos jovens, embora a maioria dos iniciadores do movimento sejam hoje quarentões e outros se aproximando dessa idade; aqui as pessoas normais assentam o juízo, mas só as pessoas normais, porque nós, os poetas, continuaremos, se o velho Deus quiser, sempre jovens, impetuosos, anarquistas, generosos, e inconformados, à procura de novas picadas, por todos os séculos, séculas, seculoruns, amém.

Castelo Hanssen
Mauá, 25/1/82


(*) Este trabalho de Castelo Hanssen foi publicado como prefácio do livro “Útero da América”, editado em 1982, com chancela do Colégio Brasileiro de Poetas e por causa desse livro o grupo deixou de existir.


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APÊNDICE II - POETA, MULHER E CIDADÃ MILITANTE: LÉA APARECIDA DE OLIVEIRA

APÊNDICE II

POETA, MULHER E CIDADÃ MILITANTE:
LÉA APARECIDA DE OLIVEIRA



A poeta Léa Aparecida de Oliveira, mineira, que a história tornou cidadã mauaense e, conseqüentemente, do Grande ABC, desaparecida em 88, era uma figura polêmica, admirada e detestada por muitos. Talvez por ter vivido tão intensamente os seus 32 anos de existência, tenha deixado marcas tão profundas como poeta, mulher e cidadã militante que foi.
Conheci Léa Aparecida de Oliveira, uma moça bonita, robusta, corajosa, desfilando num jipe conversível, pelas ruas da provinciana cidade da Porcelana, no ano de 1980, fazendo parte do Colégio Brasileiro de Poetas, de Mauá. Léa permaneceu pouco tempo no grupo, mas o nosso conhecimento foi transformado em papos e amizade que se estendeu até à época em que, já eleita vereadora, em 1982, sempre dedicava um tempinho a uma visita à Prefeitura, mais precisamente à Seção de Rendas Imobiliárias, onde trabalhávamos, eu e o poeta J.Ramos, seu grande amigo.
No Colégio Brasileiro de Poetas, Léa participou da antologia “Revoada de Pássaros Negros”, 1980, Edições Mariposa, com vários poemas, sendo quase todos gestados durante o dia, na Constanta, em Ribeirão Pires, onde trabalhava, e paridos à noite em casa do confrade Aristides Theodoro, retrabalhando e dando acabamento final. Um deles demonstra bem o engajamento na luta operária – trata-se de Resistindo:

“Meus versos confundem-se Em meio à produção
E na seção o inferno O barulho que nos ensurdece
E nos mata a cada instante

E assim em desespero
Aderimos à greve
E foi assim, com euforia,
Que nos sentimos gente”.

Um outro que é o espelho da sociedade ainda hoje – “Estádio do Morro”:

“Roupas embandeiradas
Nos quintais
Barracos assentados
Nas arquibancadas dos morros
Misto de cores
Seleção de Misérias
Reserva do Submundo
Do decantado progresso”.

Há também a parte subjetiva, que mostra a mulher – “Estupro”:

“Me esfacelo
Em areia morta
Em partículas brancas
E num esforço sobre humano
Cato restos de esperanças
E junto tudo com zelo
para construir sonhos
Os sonhos que anseio
E como indígena
Mostro meus seios
Alvos seios
Que despontam do meu corpo
Mas a bruta realidade
Chega e me violenta
E me tritura
Em pequenas partículas
De areia morta
Até que caio na feia realidade.”

Individualmente, deixou publicados os livros “O Sol e Eles”, Massao Ohno Editores, l981; “Etikêtas com Peixes e Batatinhas”, produção independente, sem data, e “Talvez Amanheça, Poemas Manuscritos”, Santo André, 1984. O Sol e Eles é um título que já estava nos seus planos, quando fazia parte do Colégio Brasileiro de Poetas. Relacionado a este, deu-se um fato que vale a pena lembrar, pois enfatiza sobremaneira o lado radical da sua personalidade. Numa reunião do grupo, ela defendera O Sol e Eles para um jornalzinho idealizado pelo Colégio. Posto em votação, perdeu por um total de doze votos contra três, sendo dois desses votos um dela e outro do namorado, que, embora não pertencesse à agremiação, fora autorizado a votar. Insatisfeita com o resultado, a poeta retirou-se do recinto, pisando duro, escadas abaixo, arrastando o namorado pela mão, não sem antes nos tachar de burros, incompetentes, ditadores de merda, etc. Retirou-se não só do recinto, mas de forma definitiva do grupo, também.
Era assim a Léa, estouvada e radical, quando não conseguia os seus intentos. No poema-prosa, Os Miseráveis de “O Sol e Eles”, ressalta esse aspecto num só verso, que diz assim: “À merda tudo e todos.”
Outro ocorrido, que faz lembrá-la, é do tempo de vereadora. Na época, o então Prefeito Leonel Damo queria vender algumas praças centrais de Mauá. A parlamentar encabeçou um movimento contra, cujo desfecho seria na Concha Acústica, na Praça 22 de Novembro. O Aristides Theodoro, anarquista como ele só, escreveu um artigo no jornal “A Voz de Mauá” a favor do prefeito, provocando a ira das esquerdas. Léa, ao ler o artigo, espalhou por toda a cidade que, se o nosso poeta e crítico literário aparecesse naquele dia, quebraria a cara dele, para todo mundo ver. Informado, o poeta achou por bem não botar os pés, muito menos a cara, no tal evento.
Além das publicações, a autora deixou um acervo inédito, incluindo um sem número de poemas – alguns rabiscados, outros datilografados e edições organizadas com ilustrações e tudo mais. Pelas anotações, arquivo e diário de viagem, além da poesia, a artista manifesta o desejo de dedicar-se ao teatro, após deixar a política; o que tencionava fazer, mesmo antes de terminar o mandato de vereadora.
Léa Aparecida de Oliveira nasceu aos catorze de novembro de 1955, em Ouro Fino – Crisólia, Estado de Minas Gerais; a inesquecível Crisólia, por ela evocada em Recordação:

“Os ciprestes e as árvores
Vão sombreando o tempo
Da velha vila / velha casa
Crisólia de Minas
Gerais e não iguais
Velhas e atuais
Recordação do Jamais.”

Mais tarde vem para a “terra da garoa”, acompanhada da família.
Embora distante, não esquece o torrão natal, lembrando a infância num trecho de Aos Cinco Anos: “As tardes cheiravam café com leite... / Os telhados das casas ao redor da igreja se sobrepunham à tarde morna com suas telhas curvas e marrons feito chocolate”.

Na década de 60, já em Mauá, onde a família fixa residência, atua na Sociedade Amigos de Bairro, do Jardim Anchieta. Sendo operária metalúrgica, de 1974 a 1982, participou da Comissão de Fábrica da Constanta (Grupo Philips) e liderou um movimento grevista, conspirando dentro da própria fábrica. Essa fase é registrada em Conspiração:

“Nas noites
De Verão
Ornamentadas
De pirilampos
Nem sonhava
Com a produção
Produzia apenas
Sonhos de outra dimensão
Jogar bolinha
Jogar amarelinha
Rodar pião.
Agora
Ora veja
Eis-me aqui
Engajada
Servindo
O patrão (...)”

A conspiração parou: a grevista foi presa na portaria da Constanta e levada para o DOPS. Nos dias em que lá esteve, apanhou e teve a clavícula quebrada.
Em conseqüência, fez uma viagem à União Soviética, fugindo do país. Segundo a família, a polícia ainda voltou à sua casa. Há um poema do seu livro Etikêta com Peixes e Batatinhas, que traduz o momento grevista do final dos anos setenta, no ABC, e que se intitula ABCD:

“Tomemos uma colher de sopa
deste fino opium do povo
para podermos dançar na ferrugem
dos campos magnéticos do ABC (...)”

Após esse momento grevista, a Constanta, onde trabalhou de 74 a 79, dá-lhe uma promoção e manda para o escritório central da firma, em Mauá, ou seja, encontrou um meio discreto de afastá-la do meio operário. Insatisfeita, deixa o escritório e vai trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, de junho de 82 a março de 83. Léa participou também dos movimentos grevistas de 79 a 80, no ABC. A militante teve participação ativa no I e II Encontros Paulista, Mulher, em 78 e 79. Integrou, ainda, o Comitê pela Anistia.
Em 1982, Léa Aparecida de Oliveira elege-se vereadora em Mauá, pelo Partido dos Trabalhadores, que ajudou a construir. Numa das primeiras reuniões, a vereadora rebela-se contra a infrutífera discussão dos “nobres colegas”, pois se questionava o fato de como a frondosa paineira, que ainda hoje dá vida à Praça Teotônio Vilela, deveria chamar-se dali por diante e davam um nome de cá, outro de lá, menos o que a árvore era: paineira. Então ela sobe à tribuna e começa dizendo que precisaria ter trazido de casa um saco de risadas, para se divertir com tamanha idiotice.
Certamente, pela coragem e discernimento quanto às prioridades sociais, é que se tornou líder da bancada do PT, na Câmara, por três anos e membro do Diretório Regional do PT-SP. Atuou nos movimentos populares de Mauá e do Grande ABC, tais como: a venda das praças centrais de Mauá; a criação do Movimento Ecológico contra a poluição da represa Billings; da Comissão de Inquérito para averiguar a situação do Hospital e Sanatório Capburgo e participou das greves da Porcelana Nara, dos bancários, dos motoristas, etc. Em 1986, candidata-se à deputada estadual, pelo PT.
Em 1988, ano em que veio a falecer, permaneceu um mês na Colômbia, fazendo uma pesquisa cultural em arte dramática. Já decepcionada com a causa política, pretendia abandoná-la e seguir um ideal artístico, além da poesia, a que se dedicava. Devido às várias correntes formadas dentro do PT e à oposição dos partidos contrários, no final do mandato, ela não conseguiu levar avante determinados projetos, interrompidos no nascedouro, provocando na parlamentar uma sensação de impotência.
Por fim, no dia 19 de junho de 1988, ao retornar de uma vitória política, em plenário, sobre a corrente antagônica que queria a coligação do PT com o PSB, a morte colheu-a em toda a sua plenitude, num trágico acidente de carro, na saída da cidade de Mauá.
Acreditamos que, após toda essa trajetória de luta, Léa continuasse a perseguir seus ideais através da arte, poesia ou teatro. A cidadã e a artista sobreviveriam.

FONTES DE CONSULTA

- Antologia “Revoada de Pássaros Negros”, do Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá, Edições Mariposa, 1980.
- Livros da Autora: “O Sol e Eles”, “Etikêta com Peixes e Batatinhas”, sem data e “Talvez Amanheça”, 1984.
- Entrevista ao poeta e crítico literário, Aristides Theodoro, do Jornal da Manhã e a Voz de Mauá, entrevista a familiares, hemeroteca, álbuns fotográficos, diários de viagem, documentos e inéditos da autora.

Este artigo,gentilmente cedido pela escritora Iracema M. Régis, foi a princípio publicado na revista Em movimento, dos Escritores em Movimento, Região do ABC, agosto de 1998.

Iracema é jornalista, poeta, ensaísta e contista. É autora do livro “Poesia” e co-autora em “Como Preparar Um Diabo Velho em Forno Brando”, com Aristides Theodoro. E tem participação em antologias, no ABC, São Paulo e Matão, através de contos, crônicas e ensaios literários.


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APÊNDICE III - DOIS POETAS MAUAENSES

APÊNDICE III
DOIS POETAS MAUAENSES

Guilherme Primo Vidotto
(o primeiro poeta mauaense do qual se tem notícia).

Paineira

Paineira frondosa e copada.
A quem os anos se encarregaram,
de seres o adorno da Mauá,
município que se formou,
pelas suas virtudes celestes,
que a natureza consagrou.

Ostentando com merecida glória,
galhos. Flores e preciosa paina,
representas algo para a história,
que muito nos enaltece e ufana.

De ti os parasitas tomam conta,
como praga e destruição.
Mas nossos esforços jamais serão poupados,
para sua salvação.

Por estares assim condenada,
pelo imprevisto da sorte,
o viço perderás, paineira querida,
pois te sabemos próxima da morte.

Orgulhosos bastante nos sentimos,
pois o que te iguala não há.
És a glória e o símbolo da Bandeira,
do Colégio Visconde de Mauá.

Mauá, 3 de setembro de 1959.

Geraldo Cavalcanti
(Poeta mauaense vencedor do I EPOM, 1972)


O Engraxate Mirim

“Vai a graxa, seu moço?”- ele pergunta,
e vai logo passando a escova e o pano.
Engraxa, limpa, lustra, unta e besunta
o sapatão da mina e do bacano.

Seu pai é cego e sua mãe, defunta.
Cedo aprendeu da vida o desengano.
Mas trabalha sorrindo, e diz que ajunta
um montão de dinheiro ao fim do ano.

Enquanto outros no vício se consomem,
hoje ele treina pra amanhã ser homem:
trabalha e ganha, não mendiga o pão.

Mas reparem vocês um triste fato:
tanto tempo a limpar tanto sapato,
anda sempre o guri de pés no chão!

Poesia vencedora do I EPOM, 1972



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MAUÁ, IMAGENS E HISTÓRIA - A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

DOIS DEDOS DE HISTÓRIA

“A história oscila entre a acepção objetiva do que aconteceu
e a noção subjetiva do relato do que aconteceu”

Euclides da Cunha


MAUÁ, IMAGENS E HISTÓRIA A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

Na história das Manifestações Culturais de Mauá, a poesia ocupa lugar de destaque principalmente ao estudarmos as décadas de 1970 e 80, quando poetas, críticos e outros intelectuais, após fundarem o Colégio Brasileiro de Poetas – instituição que ganhou extraordinárias dimensões devidas principalmente ao empenho e dedicação de seus integrantes, na época a vanguarda do movimento poético na região, intensificando a produção literária local.
Na verdade, a criação desse núcleo produtor de cultura na cidade tornou-se realidade devido à soma de, pelo menos, dois importantes fatores: o primeiro, como frisamos, a disposição dos escritores; o segundo, a atmosfera cultural favorável na época. e o conjunto das atividades desenvolvidas em torno do então Grêmio Monteiro Lobato. Nesta época, os intelectuais do período podiam tomar livros emprestados, discutir os clássicos da literatura e, ainda, apresentar seus trabalhos. Como reflexo desse contexto cultural, devemos citar também a criação do TECO, Teatro da Comunidade de Mauá e, mais tarde, a realização dos famosos EPOMs, Encontros de Poesia de Mauá. Seja como for, o fato é que o Colégio Brasileiro de Poetas foi responsável por vários recitais de poesia e, também, pela realização do 1º Congresso de Poetas da Região do ABC, realizado no início de 1978, na Praça 22 de Novembro. Além disso, os seus membros conseguiram editar importantes obras, tais como: 10 Poetas em Busca de Um Leitor, Antologia do Colégio Brasileiro de Poetas, Apelo, Poemas da Solidão, Maré Vermelha, Tormenta das Horas, Revoada de Pássaros Negros, dentre outros.
Entre os fundadores do Colégio Brasileiro de Poetas podemos destacar Aristides Theodoro. Autor de diversos livros, poeta, ensaísta e contista, este baiano morador em Mauá é ainda dono de um acervo considerável de livros, considerado por muitos o maior conjunto particular de obras existente na região. De acordo com seu depoimento, este enorme acervo foi sendo formado paulatinamente, ao longo dos trinta anos em que exerceu a função de crítico literário. Entre tantas obras, faz alusão principalmente aos 500 volumes referentes à questão negra, aos 112 títulos sobre a saga do cangaço no Brasil e, também, aos 101 livros de Gilberto Freyre. Aliás, seu atual desejo é escrever a biografia de Gilberto Freyre, de cuja obra principal, “Casa Grande & Senzala”, possui exemplar autografado pelo autor.
Aristides Theodoro, em recente artigo publicado no Jornal da Manhã, ressalta, com relação à época da criação do Colégio Brasileiro de Poetas, “bons tempos aqueles, quando não tínhamos dinheiro. Alguns de nós, tais como o Moysés e eu, não tínhamos dinheiro e quase nem roupas nem pão para comer, porém, tínhamos 20 anos e uma vontade, além de nossas forças, de sermos alguém, isso no âmbito das letras. Éramos uma molecada irreverente no bom sentido, que viajava sem destino certo, horas e horas pelas ruas às vezes lamacentas ou empoeiradas da cidade, apenas para termos mais tempo para tagarelar e dar evasão aos nossos sonhos incandescentes, que enchiam as nossas mentes de idéias mirabolantes, utópicas. Santa ingenuidade de moços puros e sonhadores em plena flor da idade”.

Prof. Dr. William Puntschart
Historiador do Museu Barão de Mauá
Secretaria de Cultura, Esportes e Lazer
Prefeitura do Município de Mauá.



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Aristides Theodoro (FORTUNA CRÍTICA - A TRADIÇÃO ESCATOLÓGICA)

FORTUNA CRÍTICA - A TRADIÇÃO ESCATOLÓGICA

(*) Vander Todorow

“Eu existo para assistir ao fim do mundo”
Murilo Mendes

A obra poética de Aristides Theodoro apresenta um núcleo convergente de temas que lembram a tradição escatológica do ocidente. É uma obra que recupera antropofagicamente o limite intertextual da produção artística nacional (Mário de Andrade, Murilo Mendes, Adão Ventura) e estrangeira (Máximo Gorki, Vladimir Maiakovski e Langston Hugues) de forma a não permitir uma leitura dissociada das influências mais amplas da História. O autor deseja, na verdade, trocar os fundamentos da criação do mito. E o faz sem pudor de absorver as descobertas estilísticas do movimento modernista em sua versão inicial. Daí a surpreendente abertura para a problemática homem versus mundo resolvida através da reativação da palavra revolucionária. O que se verifica na proposta de Aristides Theodoro não é o equilíbrio temático, mas a busca fragmentária duma tradição que vive sob o domínio do escatológico. O poeta inverte a perspectiva antropofágica de Oswald de Andrade detendo-se na exploração dos resultados duma inconclusa Revolução Caraíba. Embora o poeta deseje a resolução das contradições básicas da dimensão existencial do homem, de sentimento de inadequação ao espaço real ou imaginário, de estar sujeito às modificações do tempo e sob o domínio alienante da ideologia do poder, sabe-se também que o universo poético é apenas uma lembrança de seu desejo. O poema, embora reflita o clima de fim do humanismo e da constatação de suas chagas presentes (racismo) e futuras (com o mito de Édipo, transposto para o universo lírico do mundo pós-atômico no poema Eternidade) abrindo as portas duma nova consciência do real, não nos propõe a possibilidade concreta de efetivá-lo. Ao poema, toda transcendência não passa duma nova ordem circunscrita ao âmbito da palavra. Se a palavra, para Aristides Theodoro, é um instrumento pelo qual são julgados os bons (o povo) e os maus (os corruptos, os feitores), é também para julgar sua própria impotência. Neste caso, a palavra poética também é lembrança duma palavra maior: a do Verbo. O que coloca Aristides Theodoro entre os legítimos herdeiros da poesia de tradição hebraico-cristã, bem como arauto cujas trombetas deitam por terra a Jericó construída pela modernidade.

(*) Vander Todorow é poeta, ensaísta e professor
A Voz de Mauá, 10//09/98


Sessenta Anos

O contista Aristides Theodoro, que mora em Mauá há mais de quarenta anos, completará amanhã, 27 de novembro, sessenta anos bem vividos. Pois como costuma dizer, a vida começa aos sessenta. Theodoro é um otimista incorrigível e está preparando para o ano novo o seu 6º livro, intitulado “O Homem que liquidou um Trovão a Tiro de Clavinote e Outras Estórias de Curiapeba”. Contos que originalmente foram publicados neste jornal, do qual é colaborador assíduo.

A Voz de Mauá


Da Ciência ao Realismo Fantástico

Por fim, releio Aristides Theodoro, nas comentadas “Estórias de Curiapeba”, Edições Alpharrabio. Como o título sugere e o mesmo não faz por onde esconder, trata-se de estórias, causos, ditos e chistes apanhados diretamente da boca do povo e sabiamente transformados em conto pelo jagunço curiapebano, tal como o grande historiador Câmara Cascudo, que colhia o material para os seus livros no universo do folclore e da cultura popular. Nessas estórias, somente o “Casa Assombrada” foge um pouco ao estilo dos demais causos, neste, o contador de estórias coloca uma maior dose de ficção, utilizando-se do macabro e do realismo fantástico, lembrando ora Edgar Allan Poe, ora o Nobel de “Cem Anos de Solidão”. Acredito ainda que Aristides Theodoro chama a atenção do leitor, na questão dos nomes, já por mim observada num prefácio para um dos seus primeiros livros - “Sertão Sinistro” (ainda inédito), publicado na Voz de Mauá, em 02/10/86, dizendo o seguinte: “... A criatividade na elaboração de nomes é característica principal desse livro de Aristides Theodoro. Começando por Curiapeba, cidade imaginária, com mapa e tudo, localizada no coração da Bahia, próxima à região de Canudos, a qual oferece subsídio à criação de personagens, à época em que os fatos se desenrolam”. Nesse sentido, segue as pegadas de William Faulkner, que inventou o famoso condado de Yoknapatawpha e Gabriel Garcia Marques criador da aldeia de Macondo, ambos servindo de palco para as suas criaturas. Passando pelo arruaceiro Marroás, João Nevoeiro e seu compadre Coló; somando-se Pé de Lebre, a Nêga Valei-me, Resmulungo, Cunegundes, o soldado Faconeris, Dromedário Carmelinho e tantos outros personagens do mesmo quilate, criados pelo nosso baianíssimo Aristides Theodoro.

Iracema M. Régis
Jornal da Manhã, 14/11/96

Folclore Literário

O poeta e crítico literário Aristides Theodoro estará proferindo, dia 29 de novembro às 16 horas, na livraria Alpharrabio, palestra sobre Folclore na Literatura. Aristides vem se dedicando ao estudo do assunto há anos. Sua biblioteca, denominada por ele TOCA FILOSÓFICA, possui um acervo digno de um José Mindlin, além de ostentar na parede um quadro de Volpi.

Tribuna Popular
Santo André, novembro de 1997


Aristides Theodoro, de Mauá, fundador do Colégio Brasileiro de Poetas, no final da década de 60, fala de suas experiência com a entidade. Ela reuniu um grupo de poetas da cidade, o primeiro do gênero a ser formado na região. O Colégio de Poetas permaneceu em atividade por quase 20 anos, período em que produziu três coletâneas.

Diário do Grande ABC, 28/06/94

Retrato de um amigo

Transparente como águas de um “correguinho” que serpenteia sob ramos selvagens, rijo como o aço; autêntico como pedra bruta que não esconde sua aspereza sob qualquer polimento.
Político, porque gente; antipartidário por descrer das verdades dos reformadores do mundo; atuante no meio em que se engaja.
Simples, direto, sem adorno ao imprimir no papel a sua fala, como quem conversa.
Austero na autocrítica, quando expõe suas fragilidades; objetivo, quando reconhece seus méritos, Pródigo, rude e severo, despido de máscaras, na consideração de outrem. Admirado por uns, contestado por outros, mal-entendido, às vezes, noutras considerado; eis esculpido em palavras o retrato do indivíduo, do cidadão, do escritor, do amigo Aristides Theodoro, menino de ontem que, emerso de tantas carências, erigiu-se, produto de uma tenacidade jagunça ainda viva, na figura humana que há de ser conhecida e respeitada.

Terezinha S. Malta
Escritora e professora da Língua Portuguesa
A Voz de Mauá, 10/05/2001

Não pergunte nome de rua para o jagunço Moita Brava

(*) Gerebaldo Feitosa

Nunca pergunte nome de rua
para Aristides Theodoro,
conhecido pelos destemidos
como Moita Brava.
Você corre o risco de ter o cabra
atracado ao gasganete.
Moita Brava não entende de ruas.
Aliás, se ele for com sua fachada,
mesmo ensinando,
você não chegará a lugar algum
pois sua explicação geográfica
é mais enroscada que pentelho de negra.
O mundo de Moita Brava
não tem nome de rua...
Só tem livros, pinturas, mentiras e safadezas.
Mas se o distinto cavalheiro
encostar o umbigo no sebo por ele administrado
ali na Praça da República – de bunda para
a Avenida Ipiranga e para a Rua Basílio da Gama –
e perguntar sobre literatura negra, cangaço,
Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Tobias Barreto
& outros que tais,
ele vai despejar um mundéu de sabença
em vosso aparelho escutador,
coisa de fazer catedrático se benzer.
O sujeito é um cangaceiro –
razão do glorioso apelido –
o seu couto são as palavras...
Para informar nome de rua
agregou um branquelo metido a escritor,
que atende pelo nome de Arturo Bandini.
Para arrematar,
a dolorida revelação:
Não obstante o narrado, e,
apesar de nascido na ordeira e progressista
UTINGA,
no coração da quão dessemelhante Bahia,
o cabra é um lapidado CANALHA:
Canalha de índole,
canalha de estirpe...
um canalha de pedigree, eu diria.
Mas, sem dúvida, um canalha...
Por tudo isto, irmão leitor,
se habitar no seu coração um tico de tino,
Jamais pergunte a este cujo
um nome de rua sequer...
Nem mesmo em caso de morte.

(*) Gerebaldo Feitosa: poeta, escritor, pesquisador de inutilidades, crítico de arte, teatro, cinema, - crítico de um tudo, amigo de Mad Jack... caminhando numa manhã besta de sol, pela Avenida Ipiranga.

Sessenta anos de Aristides Theodoro
O Velho Jagunço

Neste mês de novembro, exatamente no dia 27, o escritor Aristides Theodoro, autodidata, mais conhecido entre os amigos (enchedores de saco, contadores de mentira, que azucrinam todo dia) pela alcunha de “O valho Jagunço”, “O Canalha” ou o “Livreiro Audaz”, completa sessenta anos de jornada, quarenta e tantos dos quais dedicados à literatura. Começando a resenhar livros, ainda rapazote, para “A Gazeta de Santo André”; nessa época já caraminholava poesias e contos ao voltar do serviço a pé, sempre acompanhado dos inseparáveis amigos Moysés Amaro Dalva e Castelo Hanssen. Reside em Mauá há muito tempo, de onde só sairá, segundo suas palavras, para o cemitério.
Chamado de “Velho Jagunço”, pela rudeza com que se expressa, ao dar mil e uma informações por dia (na Praça da República, onde trabalha com livros), sem ser pago para isso e sem ouvir aquelas palavras mágicas, que abrem qualquer porta como: com licença, por favor, obrigado, desculpe interromper, etc. Carinhosamente, de “Canalha”, por simples brincadeira, mas tanto esse apelido, quanto o do “Velho Jagunço” estão muito bem retratados no poema “Não Pergunte Nome de Rua Para o Jagunço Moita Brava”, do inveterado poeta sarrista, João Emílio Krauser, vulgo Mad Jack. Leiamos estes versos como ilustração: “O cabra é um lapidado canalha! / Canalha de índole, / canalha de estirpe... / um canalha de pedigree, eu diria. / Mas, sem dúvida, um canalha. O Jagunço Moita Brava não entende de ruas. / O mundo de Moita Brava não tem nome de rua... / Só tem livros, pintura, mentiras e safadezas.” “O Livreiro Audaz” vem de uma crônica do romancista Paulo Dantas, também jagunço, versando sobre a atividade livreira do escritor. Antes, o articulista Severino José, mais conhecido por ser doutor em cordel, escreveu um artigo luminoso, intitulado “Quem Tem Medo de Aristides Theodoro?”, referindo-se à sua cara de bravo, ao seu jeito agressivo de reagir às perguntas imbecis, às suas respostas espinafradas, o que constatam estas frases de seu artigo: “Áspero e aparentemente intratável, como o cacto de Manuel Bandeira. Mas isso não passa de uma máscara. Logo que vencemos este aspecto agressivo de sua personalidade, descobrimos que, por trás da carapaça rude, esconde-se um homem extremamente jovial, apaixonado e entusiasmado pela literatura”. “A falsa agressividade é uma defesa que adquiriu com o passar do tempo, face às perguntas estúpidas que lhe são dirigidas a toda hora e durante todo o dia, por transeuntes mal-educados que ousam interromper os seus agradáveis bate-papos sobre aquilo de que mais gosta, isto é, literatura”.
Entretanto, esse mesmo homem relaxa, como se estivesse no divã de um analista, ao encontrar-se com pessoas que, conforme ele afirma, “falam a mesma língua”, ou seja, falam de literatura ou de qualquer outro assunto, de forma democrática, sem a chatice cacete “dos donos da verdade” e dos “monopolizadores” de conversa, fazendo, dos diálogos, tristes e enjoativos “monólogos”. Esse mesmo homem sente-se “em sua casa”, rodeado de livros e muitos quadros, quando freqüenta locais como “O Alpharrabio – Livraria Espaço Cultura”, por ele considerado “A Universidade Livre do ABC Paulista”, um desses lugares que nos engrandecem, um desses ambientes que têm o condão de transformar o homem para melhor.”
Aristides Theodoro nasceu em Utinga, no cerne da velha Bahia, “uma pequena cabeça de porco”, como são chamados os lugarejos de pouca expressão, nos cafundós dos brasis.
Bem jovem, veio para São Paulo e igual a todo nordestino, somando a desvantagem da cor e da pobreza, enfrentou todos aqueles preconceitos por nós tão conhecidos, como se fosse um estrangeiro dentro da sua própria terra.
No começo a família aportou no bairro do Ipiranga, SP. Posteriormente, o pai adquiriu uma propriedade em Mauá, a provinciana cidade da porcelana. Aí foram jogadas as primeiras sementes da literatura, no solo fértil do rapazinho Aristides Theodoro. Sem energia elétrica, à luz de lamparina, lia todas as noites, até altas horas, para a mãe Don’Ana, mulher sem letras, “A Pérola”, de Steinbeck, “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupèry” e, sobretudo, a Bíblia, carro chefe da casa, de pais protestantes. Ouvia os “causos” fantásticos, origens dos seus contos, narrados pelo pai, o rabugento Cosme Theodoro, falando de onça “montó” (mão torta), das presepadas de valentões, estórias de tabaréus em dias de feira, fantasmas, almas penadas, lobisomem, mula-sem-cabeça, secas e humilhações.
O jovem Aristides Theodoro não se contentava em ler e armazenar livros comprados com sacrifício, às expensas do pão-de-cada-dia. Queria ver o resultado de suas imaginações mirabolantes estampado nas letrinhas miúdas da imprensa. E para perseguir isso teve de lutar, engolir muito sapo. De tanto perseguir o intento, conseguiu publicar pela primeira vez um poema de cunho religioso, no tablóide “O Colibri”, por ele ajudado a fundar, nos primórdios dos anos sessenta. Desde então, passa a escrever sobre autores e livros na Gazeta de Santo André e esporadicamente ocupa espaço numa coluna chamada “A Baronesa”, explorada pelo amigo Castelo Hanssen, no jornal “A Vanguarda” e, mais tarde, em “A Tribuna Popular”, ambas de Santo André.
Desse ponto, partiu para as publicações poéticas nas antologias do Colégio Brasileiro de Poetas, de Mauá, do qual é sócio fundador e nos “Cadernos Negros” do Grupo Quilomboje – SP. Resenha livros para a Voz de Mauá e para o Jornal da Manhã, SP. Aristides publicou os seguintes livros: “Dandaluanda”, 1982; “O Poeta Passeia por São Paulo num Sábado à Tarde”, 1991; “Poeminha sem Realismo para Ruth”, 1993; “Não Contribuirei com um só Óbulo para a Construção do Novo Mundo” (Edição resumidíssima), 1997: “Como Preparar Um Diabo Velho em Forno Brando” (em parceria com Iracema M. Régis), 1993 e “Estórias de Curiapeba”, 1996. Tem dois contos publicados no “Cadernos Negros” 20, do Quilomboje, 1997. Eis aí o Aristides Theodoro – sessentão que, com extrema jovialidade, trabalha com afinco em prol das letras nacionais.

Iracema M. Régis
Jornal da Manhã, 27/11/97


Quem Tem Medo de Aristides Theodoro

Fisicamente, nosso guru é de um tipo inesquecível: baixo, cara agasturada de nordestino subnutrido, cor de casco de cuia, seco, áspero e aparentemente intratável, como o cacto de Manuel Bandeira. Mas tudo isso não passa de uma máscara. Logo que vencemos esse aspecto agreste de sua personalidade, descobrimos que, por trás daquela carapuça rude, esconde-se um homem extremamente jovial, apaixonado e entusiasmado por literatura. Compreensível se torna, quando descobrimos que a falsa personalidade é uma defesa que adquiriu com o passar do tempo, face às perguntas estúpidas que lhe são dirigidas a toda hora e durante todo o dia, por transeuntes mal-educados que ousam interromper os seus agradáveis bate-papos sobre aquilo de que mais gosta, isto é, literatura. Vencendo esta fraqueza, aproxima-se de uma figura singular o nosso ilustre guru, Aristides Theodoro, esse valente carcará da cultura nacional. Pontífice número um na sua banca de livros usados, que fica ali, no oitão da Secretaria da Educação, na folclórica Praça da República, por onde passam diariamente inúmeras pessoas: estudantes, funcionários públicos, escritores, jornalistas, músicos, advogados, para um bate-papo descontraído com o baiano bibliófilo. A todos, Aristides tem uma palavra amiga, uma prosa agradável, sobretudo quando se trata de assunto literário. Sua banca está entupida de velharias que são comercializadas a preços deflacionados, que de certo levaria a equipe econômica do governo a descer do brasílico olimpo e passear pela Praça da República em busca de conhecimento necessário à condição política de nossa República.
Resistindo, como mandacaru, a nossa cultura encontra, nesse nordestino descendente de caetés, um divulgador entusiasta, que vem comprando e vendendo o que há de melhor na área literária, tanto nacional como universal. Sua banca é um verdadeiro oásis, onde se abeberam os sedentos de saber. É também um ponto de encontro, coito de intelectuais, que teimam ainda em fazer cultura quando, a maioria das pessoas está mais preocupada com letras de câmbio e outras, mal consegue sobreviver nesta selva inóspita. É ali, que o felino romancista Paulo Dantas, com seu perfil de gato no cio, de vez em quando, aparece, rebocando, de contrapeso, esguias etíopes e mulatas, dando suas sonoras e escandalosas gaitadas e contando inúmeras lorotas, naquele seu jeitão despreocupado de jagunço manso. É por ali, que desliza o comprido e empertigado Norlândio Meireles, pontificando falação sobre Castro Alves, sua permanente paixão. Um jovem petista exalta a participação de Lula e sai cambaleando, arrastando o seu par de muletas, certo de ter achado o remédio universal para os males da humanidade. Um velho republicano espanhol, com sua cabeleira branca, de vez em quando recita de cor poemas inteiros de Garcia Lorca e de outros poetas latinos, demonstrando assim, que o povo, como queria Oswald de Andrade, também precisa comer “os biscoitos finos” do conhecimento humano. Zacarias José, misto de agitador e falso poeta popular, carrega nas costas, solitariamente, a cultura nordestina, tentando entusiasmar a juventude na divulgação do cordel e da xilogravura. Estudantes, como já dissemos, também vêm beber nessa cacimba, que jorra ininterruptamente, como os cafés do passado, na divulgação da autêntica cultura em nossa terra. Nestes tempos bicudos, de permanente crise, conhecê-la e freqüentá-la constituem uma necessidade e obrigação, pois não é todo dia que encontramos pessoas disponíveis a comungar democraticamente o prazer da leitura e da boa prosa, em iminência de extinção.

Em homenagem aos 60 anos de Aristides Theodoro, completados no dia 27 deste mês.


Severino José é cordelista,
xilógrafo, conferencista e agitador cultural.
A Voz de Mauá, 27/11/97

Poemas Negros

Muito concorrida foi a noite de autógrafos levada a efeito há dias na Livraria Teixeira, na Capital. Ali, cercados de grande número de afeiçoados da Poesia, os poetas negros: Cunha, Ângela, Eduardo de Oliveira Hugo, Célia, Jamu, Oswaldo de Camargo e Cuti, autografaram durante várias horas o seu opúsculo primeiro “Cadernos Negros”. Na ocasião, foi lembrado o nome do poeta e escritor Aristides Theodoro, do Colégio Brasileiro de Poetas e autor de “Cantos Negros”, para figurar com um trabalho em prosa, talvez um conto ou crônica, no próximo “Cadernos”. Com esse gesto, aqueles incansáveis batalhadores de São Paulo demonstraram o seu reconhecimento a um dos maiores incentivadores da Poesia no Grande ABC, onde sua luta de muitos anos não tem sido recompensada; já não dizemos em termos econômicos, mas em termos de divulgação, por parte de quem deveria ter a obrigação de fazê-lo, uma vez que Aristides Theodoro é, incontestavelmente, um legítimo valor da região, e que não pode ficar relegado ao esquecimento.

Roque Luzzi
(Informativo Geral)
Folha do ABC



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